
Em 2025, três cidades do Espírito Santo ganharam fábricas de café, cada uma com um produto diferente. Em Linhares, a OFI inaugurou uma unidade de café solúvel com R$ 1 bilhão investidos e 300 empregos diretos. Em Sooretama, a DM Brasil abriu uma fábrica de descafeinado com capacidade de 400 mil sacas por ano e R$ 160 milhões aplicados. Em Viana, a Real Café Reserva colocou R$ 20 milhões numa unidade de cafés especiais.
São três municípios e três produtos, com um movimento comum por trás. O estado que já é o maior produtor de conilon do Brasil está virando o maior processador de café do país.
Por que isso importa aparece num ranking pouco divulgado. Nas exportações globais de café medidas por valor, Alemanha, Suíça e Itália estão entre os maiores do mundo, à frente de Colômbia, Indonésia e Etiópia. Os três primeiros não plantam café. Processam, industrializam, criam marca e vendem o produto final com uma margem que o país de origem não captura.
A margem do café não está na lavoura. Está no processamento. E é essa margem que o Espírito Santo começa a reter.
Para Orlando Caliman, economista-chefe da Apex Partners, países como Alemanha, Suíça, Itália e Holanda controlam a ponta do consumo e dos estoques. “Condição que os coloca também como players decisivos do lado da demanda do café na condição de commodities. Trata-se de uma armadilha de difícil desarme. O Brasil, em parte pelo protagonismo do Espírito Santo, começa a quebrar essa lógica”, afirmou.
O estado já lidera o solúvel. A participação capixaba nas exportações brasileiras do produto subiu de 8% em 2005 para 20% em 2025, segundo o Panorama do Café da Apex Partners, com base em dados do Comexstat. No ano passado, o ES exportou mais de US$ 216 milhões em café solúvel, alta de 28% sobre 2024.
O movimento vai além do solúvel. A Rancheiro investe R$ 80 milhões numa fábrica de moagem em Linhares, com 150 empregos. A Kaffee inaugura em 2027 uma unidade industrial e de armazenagem, com R$ 55 milhões. A Cooabriel aplicou R$ 33 milhões em beneficiamento, armazenagem e lojas em 2025. Somados, os investimentos previstos no setor cafeeiro capixaba passam de R$ 1,3 bilhão em capacidade instalada nova.
Linhares é o centro dessa transformação. A cidade concentra unidades de beneficiamento, armazéns de exportação, trading companies e indústrias de processamento, todas a distância competitiva do Porto de Vitória. A infraestrutura já instalada atrai novos aportes, que reforçam o cluster.
O volume ajuda a dimensionar o ciclo. Entre 2024 e 2029, o Espírito Santo deve receber R$ 137,6 bilhões em investimentos públicos e privados, o maior valor da série histórica, segundo o Instituto Jones dos Santos Neves. Só no setor cafeeiro de Linhares, a projeção é de R$ 4 bilhões até 2028.
O avanço tem limite claro, e Caliman aponta qual. “O Brasil ainda tem limitações para acesso a mercados mais sofisticados do café. Mesmo produzindo solúvel, ainda vendemos como quase commodity. Ou seja, vendemos o produto para grandes players na ponta do mercado. Não alcançamos ainda o varejo”, disse.
A distinção é o centro da tese. Produzir solúvel adiciona uma etapa industrial, mas vender esse solúvel a granel para quem detém a marca deixa boa parte da margem fora do país. O salto que ainda falta é chegar ao consumidor final com marca própria.
O Panorama do Café de julho de 2026 da Apex resume a questão numa pergunta: quanto da margem de industrialização e de marca o Brasil e o Espírito Santo conseguem reter? A resposta depende do próximo estágio, o do varejo, que as fábricas inauguradas em 2025 ainda não alcançam.

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