
A frequência escolar e o combate à evasão ganharam um forte aliado na capital capixaba. Um projeto inspirador implementado na Escola Padre de Anchieta, pertencente à rede municipal de ensino de Vitória, tem revolucionado o cotidiano acadêmico ao unir metodologias de engajamento, estímulo ao protagonismo e acolhimento direcionado aos estudantes. A iniciativa demonstra como a união da comunidade escolar pode transformar os desafios cotidianos em oportunidades de aprendizado e desenvolvimento coletivo.
Segundo Rosalina Canabarro — idealizadora do projeto “Presença que faz a Diferença” e alumni do Programa Lampiar, iniciativa de formação continuada focada em desenvolver lideranças educacionais transformadoras e fortalecer a gestão nas escolas públicas —, o PanReal surge como uma continuidade desse projeto inicial, que teve início em 2025. A nova etapa foi colocada em prática pelas pedagogas e professoras a partir da percepção sensível sobre a centralidade da permanência ativa do aluno na escola.
“A partir dos desafios da escola, podemos seguir mobilizando os estudantes e fortalecendo a educação. Ver os alunos engajados, valorizando a presença em sala de aula, participando das atividades e enxergando no ‘panreal’ o resultado do próprio esforço mostra que o protagonismo juvenil é o caminho para transformar a realidade escolar”, afirma Rosalina.
Os desafios diários do percurso escolar e a rede de apoio
A gestão escolar e os articuladores do projeto destacam que o caminho até a sala de aula é marcado por barreiras estruturais e logísticas significativas para as crianças. Entre os principais obstáculos relatados estão o percurso longo e a falta de infraestrutura nas ruas, que muitas vezes apresentam lama e trechos esburacados. Além disso, a ausência de transporte regular e a rotina de trabalho dos pais (que frequentemente não conseguem realizar o trajeto) tornam a jornada desafiadora. Como alternativa de solidariedade e apoio mútuo, figuras da própria comunidade acabam assumindo o papel de reunir e conduzir os estudantes em conjunto para garantir que cheguem à escola.
Protagonismo e escuta ativa: alinhando expectativas
O projeto coloca os estudantes no centro das decisões por meio de um canal direto de diálogo para compreender as expectativas deles em relação ao ambiente escolar. A partir desse intercâmbio, a rotina passa a incorporar os desejos e as sugestões da turma, garantindo recompensas e experiências muito valorizadas pelas crianças, como momentos de recreio estendido, aulas ampliadas de educação física, sessões de cinema com direito a pipoca e saídas pedagógicas. Essa escuta constante fortalece o sentimento de pertença e dá voz ativa aos alunos no processo pedagógico.
Educação financeira, matemática e ludicidade: o poder de poupar
Na educação financeira, matemática e ludicidade, o poder de poupar e os leilões do “panreal” marcam presença para contornar as dificuldades de frequência, estimular a entrega das tarefas de casa e engajar os alunos nas atividades, criando uma estratégia criativa e lúdica: a circulação de uma moeda fictícia batizada de “panreal” (um nome carinhoso escolhido em referência direta à própria Escola Padre de Anchieta). Nesse sistema de recompensa interna, os estudantes acumulam os panreais à medida que cumprem seus deveres, mantêm a frequência regular e demonstrando compromisso com a rotina escolar. As notas são entregues aos alunos toda segunda e sexta-feira, preparando o terreno para um dos momentos mais aguardados da semana: o leilão escolar.
Resultados expressivos e o impacto na gestão
Além de movimentar o ambiente escolar, a dinâmica ensina os alunos a economizar, planejar e evoluir em conceitos práticos. Sobre os reflexos dessa vivência no dia a dia acadêmico, segundo a professora Lorena Bergamini.
“As crianças apresentam progressos expressivos em matemática, educação financeira e cálculo mental.”
Na prática, o engajamento se reflete em trajetórias como a da estudante Lorena, que utilizou suas notas para comprar um lápis por 55 panreais, ou do aluno Emanuel (um estudante muito assíduo que frequenta bastante as aulas e realiza todas as tarefas, acumulando um saldo expressivo para garantir itens como uma caixa de canetinha por 20 panreais, além de ter acesso a produtos obtidos por meio de doações).
Com resultados expressivos e o impacto na gestão, embora o projeto ainda mantenha um caráter experimental, os resultados colhidos em apenas três meses de execução já impressionam. Reforçando a eficácia da proposta, a diretora da instituição, Suelen Gonçalves Biazi, comenta sobre a redução da evasão escolar.
“A iniciativa foi capaz de reduzir a evasão escolar e as faltas em 15%.”
Comprovando que o estímulo lúdico e a valorização da presença em sala de aula são caminhos altamente eficazes para ajudar a manter a frequência escolar, a experiência de Vitória consolida-se como um modelo replicável de transformação na rede de ensino, evidenciando que o fortalecimento do vínculo entre aluno e escola é o caminho primordial para o sucesso educacional.

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