
A capital capixaba vivencia um momento histórico de imersão na arte contemporânea e na reflexão sobre a presença originária no território brasileiro. O artista visual, ativista e educador Andrey Guaianá Zignnatto protagoniza uma dupla movimentação cultural de grande impacto na Enseada do Suá: a sua exposição individual “Céu de Urucum, Chão de Concreto”, em exibição na Particular Galeria, e a participação na mostra coletiva “Insurgências Indígenas: memória e resistência”, ocupando as Salas 3 e 4 do Cais das Artes. Ambas as exposições seguem abertas para visitação pública e gratuita.
Pertencente aos povos Dofurêm Guaianá e Guarani M’bya, Zignnatto constrói sua poética na fricção entre a ancestralidade e os materiais brutais da construção civil ocidental — como o cimento, o barro, o urucum, o tijolo e o sisal. Autodidata na arte, sua pesquisa é profundamente atravessada por sua história de vida: antes de consagrar-se no circuito internacional, o artista trabalhou dos 10 aos 15 anos como ajudante de pedreiro ao lado de seu avô nas obras da cidade.
A força da ancestralidade no coração da metrópole
Para a galerista Tatiana Coutinho, proprietária da Particular Galeria, receber a mostra individual do artista é uma oportunidade maravilhosa e de profundo valor estético para o circuito capixaba.
“É maravilhoso receber essa exposição na Particular Galeria. Admiro muito o trabalho do Andrey e toda a sua trajetória autodidata, que começou lá atrás, na vivência com as obras. Ver esse contraste do cimento com o urucum e com a arte é presenciar a força dessa ancestralidade, que se recusa a ser silenciada e continua extremamente viva, pulsando e se fazendo presente em meio às metrópoles”, destaca Tatiana Coutinho.
Na Particular Galeria, a exposição apresenta um momento inédito na produção de Zignnatto: a introdução do suporte em tela cercado por molduras feitas com lascas de tijolos.
“Para mim, a tela não é um lugar passivo de receber pintura, pois não me vejo como um pintor tradicional. É uma área a ser ocupada e demarcada como artista e como indígena. As molduras em lascas de tijolo trazem a estética da periferia que cerca esse espaço, enquanto o urucum representa a cor do meu clã, o Opekutiang — o povo do pé vermelho”, explica o artista.
Conexão com o Cais das Artes e diálogo com os territórios capixabas
A presença do artista se expande no Cais das Artes, onde integra a grande mostra coletiva “Insurgências Indígenas: memória e resistência”, sob curadoria de Marcelo Campos. A exposição é fruto de pesquisas e imersões em territórios indígenas do Espírito Santo, como as aldeias Caieiras Velhas, Três Palmeiras e Pau Brasil, em Aracruz.
A produção das obras de Zignnatto para o Cais das Artes contou, inclusive, com a colaboração direta de artistas Guarani de Aracruz na confecção dos grafismos sobre cerâmica.
São Paulo como aldeia e a tecnologia como aliada da memória
Durante a passagem pela capital, Zignnatto reforçou que São Paulo figura hoje como a segunda cidade com maior população indígena do Brasil e a primeira em diversidade de etnias.
“Muita gente pensa no indígena como uma figura única, mas são mais de 300 povos no Brasil com culturas completamente distintas. Para o nosso povo Guaianá, São Paulo sempre foi o nosso território originário. Nós dizemos que a cidade de São Paulo está dentro da nossa aldeia, e não o contrário”, pontua.
Para perpetuar esse conhecimento no contexto urbano, o artista e sua comunidade utilizam a tecnologia a favor da memória: estão desenvolvendo um dicionário digital da língua digré, materiais didáticos, um livro de filosofia originária com a perspectiva da construção civil e o roteiro de um longa-metragem de ficção histórica sobre as origens e os conflitos do povo Guaianá durante a colonização.
Projeção global e acervos internacionais
O trabalho de Andrey Guaianá Zignnatto acumula reconhecimento internacional de peso. O artista já realizou exposição individual no MOLAA (Museum of Latin American Art), em Los Angeles, e inaugurou o espaço da coleção Capriles Brillembourg, em Madri. Através dessa mostra, teve uma obra adquirida para o acervo permanente do prestigiado Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía (Madri) — onde seu trabalho figura ao lado de obras históricas como Guernica, de Pablo Picasso, e telas de Salvador Dalí.
Além disso, possui trabalhos nos acervos do PAMM (Pérez Art Museum Miami), indicações a prêmios da CIFO (Cisneros Fontanels Art Foundation) e peças integradas às coleções de patronos do Guggenheim Museum.
Serviço / Exposição em cartaz
1. Exposição individual: “Céu de Urucum, Chão de Concreto”
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Artista: Andrey Guaianá Zignnatto
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Local: Particular Galeria (Rua Abiail do Amaral Carneiro, 85, Loja 14 — Enseada do Suá, Vitória – ES)
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Período de exibição: Em cartaz até 07 de janeiro de 2027
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Horário de funcionamento: Segunda a sexta-feira, das 14h às 19h
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Entrada: Gratuita
2. Exposição Coletiva: “Insurgências Indígenas: memória e resistência”
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Curadoria: Marcelo Campos
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Local: Cais das Artes (Salas 3 e 4 — Rua Judite Maria Tovar Varejão, 530, Enseada do Suá, Vitória – ES)
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Período de exibição: Em cartaz para visitação pública
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Linguagens: Pinturas, esculturas, fotografia, arte digital, instalações e performances
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Entrada: Gratuita (mediante retirada de ingressos no local)

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